Uma família sobre rodas

Texto e imagens: Cezar Marques

Desde criança sou fascinado pelos carrinhos de brinquedo, em especial, os utilitários, ônibus, caminhões, jipes. Cheguei a ter uma miniatura de Trailer. Improvisava estradas pela sala de casa (quem nunca?) e deixava a imaginação fazer a viagem. Já fui escoteiro, fiz acampamentos, jamboree nacional e internacional, meu carro de vida é uma Defender 110. O espírito de aventura sempre esteve comigo. Mas a possibilidade de pegar a estrada num veículo recreativo de verdade, com cozinha, banheiro, acomodação de repouso, espaço de convivência, sempre foi um sonho.

E foi assim que alugamos um RV (abreviação de Recreational Vehicle – o que no Brasil chamamos de Motorhome), para um roteiro pela Califórnia. Saindo de San Francisco e chegando em Los Angeles, pela lendária costeira Highway 1.

Na empreitada, fui acompanhado da minha mulher Raquel, meus filhos Joaquim Pedro e João Francisco. Durante quase um ano, estudamos o roteiro e conversávamos sobre as responsabilidades que uma viagem dessas exige.

A decisão foi motivada pelo querido amigo Jaime Soares, um apaixonado por viagens e orientador detalhista de tudo que eu deveria ficar alerta para minimizar riscos. Aliás, você pode obter boas informações sobre viagem de RV aqui mesmo no blog , assinado pelo craque Jaime. De forma didática e bastante elucidativa, ele explica todos os itens importantes a respeito

Sabemos que toda viagem exige um planejamento prévio. Mas embarcar num RV, essa atenção precisa ser redobrada. Vai muito mais além do que uma simples aventura. A importância da resiliência, a busca constante da autonomia e a agilidade para a resolução dos problemas que sempre surgem inesperadamente. Saber abrir mão do conforto e compreender as variáveis que você pode encontrar pela frente.

A começar, pelo tamanho. No nosso caso, fizemos a opção num RV para seis pessoas pois nos daria um pouco mais de “conforto” (entre aspas mesmo). Mas ainda assim, imagina aquela planta de um apartamento de quarto e sala da Gafisa, ter que dividir um espaço ainda menor, num carro em movimento pela estrada, com cozinha, banheiro e toda a gestão da parafernália ambulante.

Viajar num motorhome não é somente aquela foto bacana que a gente faz no post do Instagram. Tem um lado B de trabalho e atenção que precisa ser pensado e planejado o tempo todo. Mas é compensador, fique certo disso.

A convivência familiar sobre rodas também é um desafio e aprendizado.

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Filosofando um pouco sobre a vida num RV e buscando o fundamento teórico em Dupuis (1996), no estudo de “construção das identidades”, são os indivíduos que, por meio de suas ações, contribuem para a construção de sua sociedade. Entretanto, os indivíduos agem sempre dentro de contextos que lhes são preexistentes e orientam o sentido de suas ações. A construção do mundo social é assim.

Nessa perspectiva, entendo que em situações como essa, dentro de um veículo em moradia pela estrada, longe dos parâmetros estruturais existentes no cotidiano familiar e social, lidamos ocasionalmente com o inesperado – um problema mecânico, uma alteração climática, uma chuva de ventos fortes, um risco iminente de perder a rota, o GPS errar o caminho, o anoitecer dificultar a chegada ao destino… pois é, passamos por tudo isso e podemos considerar fenômenos que sempre ameaçam o equilíbrio, os padrões que sofrem rupturas e geram apreensão individual e que podem alterar o comportamento do indivíduo no grupo.

Esse contexto pode oferecer inúmeras variáveis comportamentais diante da nova inserção ambiental, a distância do território de origem e o afeto comunitário que nele sempre existiu. Dessa forma, podemos desenvolver um conjunto de significados e atribuindo-lhes consistência, justificativa e legitimidade. E ali, naquele momento, tínhamos a ausência do padrão, da estrutura na qual pertencíamos. Era necessário pensarmos de forma consensual, em aprender a nova realidade, integrando os significados e viabilizando a nossa existência em outra esfera.

Vivenciar aprendizados e fazer dele um sentido de nossa felicidade, e com isso, consolidar ainda mais o nosso respeito, nossas diferenças, nossa convivência e, sobretudo, o nosso amor.

E foi assim que fizemos.

Um espírito familiar de cumplicidade para atuar de forma colaborativa é algo desafiador para a boa convivência em harmonia. Dividir tarefas e responsabilidades era fundamental: O João era o guardião do mapa com o GPS e as rotas, Raquel nas compras, na cozinha e também revezando a direção, Joaquim com a parte elétrica, esvaziar o esgoto, verificação do nível do gás propano, o abastecimento de água, contando também com a preciosa ajuda do João. Sim, eu era aquele que melhor sabia usar o saca-rolhas para abrir os bons rótulos californianos.

Falando agora sobre o nosso roteiro, saímos do Rio de Janeiro num vôo para San Francisco, onde ficamos quatro dias curtindo a cidade. Fizemos bons passeios e o mais bacana foi alugar bicicletas e seguir pela Golden Gate Bridge, em visita a Sausalito.

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No último dia, pegamos um Uber para Dublin, onde ficava a garagem da empresa de RV.

Ao sair da garagem, já a bordo da “nossa nova casa”, procuramos um Walmart para as primeiras compras de mercado. Roupa de cama, material de limpeza, comida e, é claro, vinhos nacionais e algumas cervejinhas artesanais locais para as resenhas em família. Fazer compras de mercado para um RV e programar algumas refeições e confraternizações, torna-se algo bastante em conta além de ser um programa deliciosamente espetacular.

Iniciamos a viagem em direção ao Vale do Silício – uma região que respira conhecimento. Entramos no campus da Universidade de Stanford, instituição que incentiva o empreendedorismo e com isso teve muito estímulo para o surgimento de empresas de tecnologia importantes naquela região. Stanford é uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Um campus amplo, bem arborizado, com muitos jovens circulando e prédios bonitos.

Passamos pela Garagem da HP (367 Addison Ave, Palo Alto,) onde uma das primeiras empresas do Vale do Silício foi fundada. A garagem está fechada ao público e por isso só pode ser vista de fora. Em seguida, estivemos no Campus do Facebook, o maior site do planeta, onde os meninos tiraram a foto com o tradicional “Like” no jardim que fica em frente ao estacionamento do prédio. Programinha bem turístico, mas já que estamos por ali, custa nada curtir, comentar e compartilhar.

Mais adiante, parada obrigatória no Campus do Google, uma das empresas mais badaladas do Vale e não podíamos deixar de dar uma voltinha nas tradicionais bicicletinhas coloridas que ficam espalhadas pelo campus e usada pelos funcionários. Acompanhamos a movimentação dos colaboradores nos prédios da empresa e percebemos um ambiente corporativo diferente, uma área de convivência ao ar livre, com mobilidade e um urbanismo inteligente.

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Ao sair do Vale do Silício, novamente pegamos a estrada rumo a Santa Cruz/Monterey, e o destino para dormir era o KOA Santa Cruz (1186 San Andreas Rd, Watsonville, CA 95076, EUA), o camping escolhido pela internet para passarmos a primeira noite. A rede KOA (www.koa.com) é bem ampla e você pode baixar o aplicativo no celular para localizar algum camping pelo caminho da sua viagem. E lá mesmo você pode fazer sua reserva antecipada.

Acabamos pegando uma estrada congestionada e o GPS nos indicou um caminho alternativo. Já havia anoitecido, estrada pequena, primeira noite naquele caminhão enorme com a família dentro, no meio de uma floresta fechada, repleta de árvores com chuva e galhos caindo em curvas fechadíssimas. Tudo para testar a nossa capacidade de lidar com as adversidades. No meio de tudo isso, ainda pegamos uma estrada escura com uma neblina intensa, igual nos filmes de Stephen King, quando temos aquela certeza de que algo não vai acabar bem para o protagonista principal. Mas como diz aquela frase do Fernando Sabino – “No final tudo dá certo, se não der, é porque ainda não é o final”. Com uma certa demora, acabamos chegando à noite ao camping que na cancela de entrada já exibia um envelope pendurado com o meu sobrenome e o mapa de localização de como chegar na nossa vaga.

Era a nossa primeira noite e já abrimos uma ampola de chardonnay para relaxar e harmonizar com a pasta feita pela Raquel. Na trilha sonora, clássicos em vinil que Joaquim comprou num brechó da Mission Street e uma vitrola adquirida na Urban Outffiters de San Francisco. Um jantar em família maravilhoso, com muito amor compartilhado. Ao final, os meninos foram visitar os vizinhos que faziam um acampamento com fogueira e muita cantoria. O ambiente de quem viaja de motorhome é sempre muito bacana. Há um clima de solidariedade entre os vizinhos de camping com seus RV’s. Possibilidade de novos diálogos, trocas e descobertas.

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Logo que amanheceu deu para perceber a belíssima e bucólica paisagem do KOA Santa Cruz, um camping bastante rústico mas muito bem estruturado. Ficamos bem no meio da floresta com imensas árvores de eucaliptos. Um dia de céu azul e uma temperatura igual inverno na serra das Araras. Fizemos o nosso café da manhã ao ar livre (puxando o slide do RV e montando uma bela mesa) – cereais, torradas, um café quentinho, uma resenha fraterna para avaliar o planejamento da rota e em seguida partimos para Monterey e depois Carmel.

Sempre explorando cada lugarejo que passávamos e procurando curtir cada momento. Em Monterey evitamos algo mais turístico como o Monterey Bay Aquarium, mas chegamos a tomar um chope na Cannery Row – a área portuária revitalizada. Conseguimos acompanhar muitos elefantes marinhos que pegavam sol nas pedras, as gaivotas que faziam vôo baixo, caminhamos pela cidade e eu nunca negava um wine tasting.

Ao deixar Monterey, estávamos decididos a seguir viagem e dormir no Carmel RV (www.carmelrv.com). Optamos sempre passar a noite em camping por medida de segurança e também para aproveitar a estrutura oferecida. Em Carmel estacionamos o RV e fomos explorar a cidade numa caminhada. Uma cidade histórica e de pequenas praias bonitas e apropriadas para um dia de surf. Almoçamos no restaurante La Bicyclette, recomendadíssimo e de fato muito bom.

O Carmel RV é um camping menor, dirigir um RV dentro dele exige cautela e o terreno em algumas partes possui subidas bem sinuosas. Mas tudo correu bem, fizemos todo o protocolo de elétrica, água e esgoto. Nosso aguardado jantar, sempre regado com bons rótulos e muita conversa pela noite. Ao amanhecer, preparamos o nosso café e, como já dizia Ray Charles – Hit the road Jack

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Próximo destino: Paso Robles. Nossa parada da vez era o Wine Country RV Resort (www.sunrvresorts.com/community/wic), um camping maravilhosamente localizado dentro de um vinhedo com uma super estrutura de academia, lavanderia, restaurante e vestiários.

Durante a viagem, um lindo visual de muitos vinhedos. A estrada sempre muito boa, e muitos RVs cruzavam conosco pelo caminho. O Estados Unidos é um lugar muito apropriado e estruturado para suporte nesse tipo de viagem.

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Quando chegamos em Paso Robles, visitamos várias vinícolas na região que dizem ser a “nova Napa Valley”. Como dica fica a Justin Vineyards & Winery: vinhos impecáveis e um Cabernet Sauvignon pra guardar na memória, a Daou (www.daouvineyards.com) e a Tablas Creek (www.tablascreek.com). Dormimos no maravilhoso camping, regado a bons rótulos, claro, e seguimos pela manhã para Santa Bárbara.

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Novamente pé na estrada, mas tivemos que desviar da Highway 1 na altura da Big Sur por um problema de trecho acidentado na costa central da Califórnia. Com isso acabamos chegando num camping de RV que era um rancho, numa região rural belíssima – O Rancho Oso RV & Camping Resort (3750 Paradise Road Santa Barbara, CA 93105 http://www.rvonthego.com). O local era distante, com muito frio, sem wi-fi. Foi uma noite diferente, mas que não deixou de ter o vinho e a resenha.

Ao amanhecer pegamos a estrada e acabamos parando num belo local dentro da floresta para o nosso café da manhã ao ar livre. Seguimos depois por uma estrada com lindas paisagens e ao longo do caminho parávamos em pequenos lugarejos como Los Olivos, Solvang , entre outros. O destino agora era Santa Bárbara – um lugar mais conhecido.

O caminho pelo litoral até a chegar na cidade, foi um belo passeio com um dia de sol e céu azul. Ali era possível sentir a legitimidade do clima californiano de surf trip na veia. As areais da orla com redes montadas para prática de esportes, pranchas no outside, as pequenas surf shops distribuídas em pequenas lojinhas…. Tudo aquilo que me fez lembrar as páginas da Revista Fluir em meados dos anos 80, quando curtia meu skate Benhouse e minha camisa Hang Ten. E anos depois comecei a trabalhar montando campeonatos de Surf no Rio de Janeiro. Santa Bárbara é um lugar especial e por conta disso é muito querida por brasileiros.

Num agradável final de tarde e com o spotify mandando ver com Willie Nelson – on the road again, chegamos num camping espetacular em Malibu, com uma vista deslumbrante do pôr do sol no oceano pacífico (www.maliburv.com). Esse era o único camping que encontramos com tarifário diferenciado. Dependendo da vaga escolhida, o preço poderia ser diferente. E a vaga mais cara, era aquela que tinha uma vista mais bacana do Oceano Pacífico. Eu sabia que corria o risco de nunca mais voltar naquele lugar. Por isso, uma vaga especial virou obrigação. Não hesitei e realmente foi uma experiência única.

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Era noite do meu aniversário, para não deslocar o caminhão, seria mais fácil pegar um uber. Assim fomos jantar num restaurante italiano próximo e indicado por um site de gastronomia da região. Os proprietários foram muito acolhedores, teve vinho, parabéns e bolinho para comemorar. Um momento ainda mais especial pois era a nossa despedida do RV.

Após um belo café da manhã com vista inacreditável para o Pacífico, deixamos Malibu e seguimos para entregar o RV numa garagem próxima a Los Angeles. Dali por diante alugamos um carro de passeio e fomos para Venice e Santa Monica. O final da viagem foi bacana, mas quando você está a bordo de um motorhome, ela fica mais especial e inesquecível. Ficamos num bom hotel em Los Angeles, mas tínhamos saudades da nossa casa sobre rodas.

Espero que a nossa experiência sirva de motivação para você encarar um RV. Vale muito a pena. Os filmes publicados procuram resumir um pouco o clima da nossa viagem. Espero que gostem e se animem a pegar o mapa e traçar a rota de vocês a bordo de um RV.

Boa Viagem!

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